Nutrição

Muito além do “não gosto”

Os desafios da seletividade alimentar

A expressão “Chato para comer” é tão comum entre os brasileiros que virou até nome de programa de tv. Essa expressão se refere ao que chamamos de seletividade alimentar. 

Presente em crianças e adultos, ela envolve fatores sensoriais e emocionais, e exige compreensão, especialmente em casos de pessoas com autismo. Em termos simples, trata-se de uma dificuldade ou resistência em aceitar determinados alimentos, seja por textura, cheiro, cor, sabor ou até pela forma como são apresentados. Embora muita gente associe isso apenas à falta de hábito e outros a nomeiem de “capricho”, a questão é bem mais complexa e envolve fatores biológicos, psicológicos e sensoriais.

Na infância, a seletividade alimentar costuma ser mais frequente. É comum que crianças recusem legumes, verduras ou alimentos com sabores mais intensos. Isso faz parte do desenvolvimento, já que o paladar infantil tende a preferir gostos mais suaves e familiares. No entanto, quando a recusa é muito restritiva, por exemplo, quando a criança aceita apenas um grupo muito pequeno de alimentos, é importante ficar atento.

Esse comportamento pode impactar diretamente a saúde, já que uma alimentação limitada pode levar à falta de nutrientes importantes para o crescimento e o desenvolvimento. Além disso, pode gerar estresse nas famílias, principalmente na hora das refeições, que deveria ser um momento tranquilos de convivência.

Nos adultos, a seletividade alimentar também existe, embora seja menos discutida. Muitas vezes, ela é vista como uma característica pessoal (“não gosto disso”, “não como aquilo”), mas em alguns casos pode estar ligada a experiências negativas com alimentos, questões sensoriais ou até ansiedade. Há adultos que evitam experimentar novos alimentos ou que mantêm uma dieta bastante restrita desde a infância.

Um ponto fundamental nesse debate é a relação entre seletividade alimentar e o Transtorno do Espectro Autista. Pessoas autistas frequentemente apresentam hipersensibilidade sensorial, o que significa que estímulos como textura, cheiro e temperatura dos alimentos podem ser percebidos de forma muito mais intensa. Isso pode fazer com que determinados alimentos sejam extremamente desconfortáveis, e não apenas “desagradáveis”.


Por exemplo, uma criança autista pode rejeitar alimentos pastosos, crocantes ou com misturas de textura, como um arroz com feijão, porque a combinação sensorial causa estranhamento. Em outros casos, a cor ou até o som ao mastigar pode influenciar na aceitação do alimento. Por isso, é importante compreender que, nesses casos, a seletividade não é uma escolha, mas uma resposta real do organismo.

Diante desse cenário, a abordagem precisa ser cuidadosa e respeitosa. Forçar a criança (ou mesmo o adulto) a comer pode piorar a relação com a comida e aumentar a rejeição. O ideal é trabalhar a introdução alimentar de forma gradual, oferecendo variedade, mas sem pressão, e criando um ambiente seguro durante as refeições.

O acompanhamento de profissionais, como nutricionistas e terapeutas ocupacionais, pode ser fundamental, especialmente em casos mais severos ou quando há suspeita de questões sensoriais envolvidas. Esses especialistas podem ajudar a desenvolver estratégias para ampliar o repertório alimentar de forma saudável e possível para cada pessoa.

Outro aspecto importante é evitar julgamentos. A seletividade alimentar ainda é cercada de preconceitos, e muitas pessoas são rotuladas de forma negativa por seus hábitos alimentares. Isso só dificulta a busca por compreensão e soluções adequadas.

Por fim, é importante entender que cada pessoa tem uma relação única com a comida. Promover uma alimentação equilibrada não significa impor padrões rígidos, mas sim buscar caminhos que respeitem as necessidades individuais. Ao olhar para a seletividade alimentar com mais informação e empatia, é possível transformar um desafio em um processo de cuidado e desenvolvimento.

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