Queimadas: um problema ambiental e de saúde pública.

As queimadas representam uma das maiores ameaças ambientais e de saúde pública no Brasil. Além da destruição da vegetação e da perda de biodiversidade, a fumaça produzida pelos incêndios libera grandes quantidades de material particulado fino (MP2,5), monóxido de carbono e outros poluentes que afetam diretamente o sistema respiratório e cardiovascular. O MP2,5 é o poluente mais associado à fumaça oriunda de queimadas e é muito perigoso, porque, com um diâmetro cerca de 30 vezes mais fino que um fio de cabelo, consegue facilmente penetrar nos pulmões e chegar à corrente sanguínea.
Um estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Acta Amazonica, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), revelou a dimensão desse problema. Após analisar 108 pesquisas científicas produzidas entre 1986 e 2023, os autores concluíram que, nos períodos de queimadas mais intensas na Amazônia, ocorre um aumento médio de 23% nas internações por doenças respiratórias e de 21% nas internações por doenças cardiovasculares em diferentes regiões do país. A revisão identificou ainda 41 diferentes impactos à saúde relacionados à perda de florestas e às queimadas.
Os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias, como asma e bronquite. Entretanto, mesmo indivíduos saudáveis podem apresentar irritação nos olhos, nariz e garganta, crises de tosse, redução da capacidade pulmonar e maior risco de problemas cardiovasculares após dias seguidos de exposição à fumaça.
Outro dado preocupante apontado pelos pesquisadores é que, em anos de seca severa, até 10% das mortes prematuras associadas à poluição do ar no Brasil podem estar relacionadas às emissões provenientes de incêndios florestais.
Esse cenário pode se agravar com a atuação do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Espera-se um El Niño rigoroso em 2026 e aqui no Brasil ele costuma provocar estiagens prolongadas em áreas da Amazônia, do Cerrado e do Centro-Oeste, reduzindo a umidade da vegetação e aumentando significativamente o risco de incêndios florestais. Além disso, o ar mais seco dificulta a dispersão dos poluentes, fazendo com que a fumaça permaneça por mais tempo na atmosfera e intensifique seus efeitos sobre a saúde da população.
Por isso os especialistas defendem desde já medidas de prevenção às queimadas, do monitoramento da qualidade do ar e da atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) durante os períodos críticos. Também recomendam que a população reduza atividades físicas ao ar livre em dias de muita fumaça, mantenha boa hidratação e procure atendimento médico diante de sintomas persistentes.
As queimadas demonstram que preservar as florestas não é apenas uma questão ambiental, mas também uma estratégia fundamental para proteger a saúde e a qualidade de vida de milhões de brasileiros.